a voz da lua

a voz da lua

nada cresce ao luar

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maya
dez 28, 2025
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“o silêncio é o elemento em que se formam as grandes coisas, no qual crescem as ideias, as amizades, o amor.” Maurice Maeterlinck

“Sometimes I need only do stand
Wherever I am to be blessed.”


Mary Oliver

2025 - parte 1/2
Todas as vezes em que me acomodei para ler um livro: “leer, casi tanto como escribir, significa asumir riesgos”; todas as vezes em que me sentei para escrever um texto; todas as vezes em que fui dormir com uma angústia no peito e não me anestesiei; todas as vezes em que acordei com uma ideia em mente e fui correndo desenha-la num bloco de papel; todas as vezes em que tive que dizer não e não e não e mais uma vez não! (ou como diz Jane Fonda: - “não, é uma frase completa!”); todas as vezes em que pensei em desistir e foda-se, nada é tão importante quanto parece; todas as vezes em que voltei a acreditar, eu me refaço todos os dias; todas as vezes em que reli um livro e sublinhei novos trechos dele; todas as vezes em que reescrevi um texto e abandonei partes das quais antes eu era bastante apegada; todas as vezes em que me senti sozinha e fiz massagem nos meus pés enquanto assistia um filme bom; todas as vezes em que preparei um café para mim, sem máquina nem cápsula, porque justamente o preparo do café é o que movimenta meu processo de cura; todas as vezes em que fiquei sem palavras e ouvi meu coração bater acelerado, mas o que é isso aqui dentro?; todas as vezes em que gastei tantas das minhas palavras para um coração amargurado: “nem todas as verdades são para todos os ouvidos.” - Umberto Eco; todas as vezes em que escolhi, conscientemente, minha solidão: quero passar o dia inteiro comigo!(domingos!); todas as vezes em que me sentei ao lado do meu medo da solidão e fiquei acordada olhando bem fundo em seus olhos (insônia); todas as vezes em que confiaram em mim, me escutaram de coração aberto; todas as vezes em que, sentindo que confiavam em mim, eu fluí como um rio (sou capaz de fazer tudo o que me pedirem nesse set de filmagem, sou capaz de escrever mais quantos livros eu quiser com essa parceira tão generosa); todas as vezes em que tomei banho chorando; todas as vezes em que tomei banho explodindo de alegria; todas as vezes em que amei a minha casa, cuidando calmamente dela, sou eu quem limpo meu pequeno lar (e isso faz eu me sentir poderosa); todas as vezes em que eu tive que sair da frente do computador para alongar, então passava alguns minutos numa conexão linda com meu corpo, sentindo meus pés, minha coluna, meus braços: “leer, casi tanto como escribir, significa poner el cuerpo”; todas as vezes em que planejei escapar para um país distante: da próxima vez eu fico nesse país; todas as vezes em que presenteei alguém com a minha criatividade: sou abundante em ideias; todas as vezes em que magoei alguém com a minha honestidade, posso ser muito fria; todas as vezes em que senti alguém me subestimar: só pelo modo em como essa pessoa me olha (energia é algo que a gente sente); todas as vezes em que subestimei alguém, ninguém é tão bobo quanto faz parecer; todas as vezes em que compartilhei intimidade com um homem: que delícia o encontro dos corpos nas madrugadas frias, enquanto um filme bom passa sobre nós!; todas as vezes em que esses mesmos homens se mostraram superficiais, os sinais estão nas atitudes mais simples do cotidiano; todas as vezes em que acreditei na numerologia, na astrologia, no tarô…; todas as vezes em que eu tive que me virar e, mais uma vez, acreditar em mim mesma; todas as vezes em que os dias passaram depressa e eu não consegui parar; todas as vezes em que a vida me mostrou que eu teria que parar; todas as vezes em que a sociedade insistiu em me mostrar a diferença de oportunidades entre homens e mulheres; todas as vezes em que eu mostrei para a sociedade que eu não caio mais em certas armadilhas; todas as vezes de um ano de vida de uma pessoa comum, de mais uma pessoa que habita essa dimensão que não parece ter o menor sentido, mas que sempre acaba por nos surpreender com beleza e poesia.

‘No soy frágil como una flor
Soy frágil como una bomba.’

Frida Kahlo

Ola de lagrimas, Beatriz García Huertas - Chile

O que seria um ano bem sucedido? Seria um ano cheio de conquistas? Que tipo de conquistas? E a quem lhe é permitido conquistar certas coisas? A quem lhe é permitido transgredir? É preciso modificar o tempo todo a forma como nos vendem as ideias e os conceitos de uma vida feliz. Sou adulta, sei muito bem como as coisas funcionam.

série Killing Eve

No caminho, sempre haverão de surgir desafios de todo tipo: pessoas que abrem portas pra você, pessoas que fecham, pessoas que abrem só um pouco, pessoas que dificultam a sua passagem, pessoas que querem abrir a sua porta, ou, você tentando abrir uma porta que desde o princípio estava trancada e, acredite, você nem queria tanto encontrar essa chave, desde o início ela não era pra você.
Mas isso não é sobre portas. Ainda que nos vendam essa ideia de que uma vida bem vivida é uma vida feita do acúmulo de conquistas (medalhas, prêmios, top 10 mundial), a verdade é que esses são só alguns dos momentos que marcam uma vida cheia de dias supostamente ordinários. Somos feitos de inúmeros dias que representam um verdadeiro NADA para a nossa sociedade, no entanto, são desses dias que nascem os tais dos marcos dentro de uma trajetória.

“You shouldn’t start with art. But you have to start looking at what kind of thoughts you have in your head and what thoughts you have in your heart.”

Arvo Pärt


É no 'amadorismo' da vida que reside a manifestação da nossa essência e, independente de como isso seja para cada um, sinto que a construção diária do nosso ser é que é, no fim das contas, a nossa grande obra de arte. Fora que, isso é a única coisa que ninguém pode tirar de você, tampouco fazer por você: a forma como você vive todos os seus dias. Todas as vezes em que você viveu corajosa e honestamente. Todas as vezes em que você, sozinho, foi capaz de ser real (vulnerável). Um grande sucesso ao meu ver: sua experiência de vida! É com ela que caminhamos, com a nossa vida vivida, ou seja, com tudo aquilo que permeia nossa pequena rotina.

É daí que nasce aquilo que é grande, no sentindo de nos engrandecer de fato.

ORLANDO, MA BIOGRAPHIE POLITIQUE, Paul B. Preciado

Gosto de pensar numa vida construída na manifestação da minha criatividade, não somente no campo profissional, mas principalmente no campo pessoal e íntimo. O que me traz confiança e reforça a minha determinação é o meu mundo interno, nele me sinto protegida, pois ele sim é uma criação só minha.


→ Poder é a forma como você se enxerga ←

Diana

2025 - parte 2/2
Neste ano de 2025 tive que lidar muito com o tema do gestar. Entendi que para gestar é preciso antes uma origem.
Qual é a sua origem/originalidade?

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